03/12/2004
F for Fake 2.0

Leia o artigo completo na revista Trópico
Cícero Inácio da Silva vem criando confusão nos meios acadêmicos com o seu projeto de doutorado “assina: do texto ao contexto”, que investiga regimes de autenticidade e autenticação, questionando nome próprio, assinatura, texto, legibilidade e reconhecimento.
A investigação é feita a partir de uma experiência na própria internet que dissemina vários sites fictícios, entre revistas “científicas” eletrônicas, institutos de pesquisa e textos aleatórios.
Nesses sites, apresenta textos gerados eletronicamente e “assinados” pelos algoritmos que foram “batizados” (e aqui não é fortuito o uso dessa palavra) com nomes de “autores” reconhecidos. “Afinal, por que não posso batizar um algoritmo de Platão?”, pergunta ironicamente Cícero.
Esses textos assinados pelos algoritmos criados para o projeto servem, assim, para questionar se o próprio “nome” não está se tornando uma “marca” sem referência nas redes. E essa hipótese é testada de maneira provocativa.
Cícero publicou os mesmos textos com e sem a assinatura de pessoas famosas em diferentes sites. Até agora os textos mais citados são os assinados por algoritmos homônimos de pessoas reconhecidas intelectualmente, como os do algoritmo “Gilles Deleuze”. Os mesmo textos assinados pelo algoritmo “João” não tiveram a mesma sorte...
Os textos, no entanto, não fazem sentido algum. São gerados computacionalmente em português e depois convertidos por tradutores eletrônicos gratuitos da internet (como o Babelfish do Altavista) para o espanhol, o que supostamente lhes dá mais credibilidade.
O projeto desencadeou protestos veementes e ameaças de processos judiciais feitas por intelectuais e editores de revistas científicas internacionais sobre o uso de seus nomes próprios no corpo dos periódicos científicos de “assina”.
Um conhecido ativista do movimento Open Source, por exemplo, contestou o fato de um arquivo ter sido salvo com seu nome, numa página on line que correspondia a algo como nomedessapessoa.htm.
E o editor de um dos mais respeitados periódicos da área de novas mídias, depois de “entender” o projeto, autorizou Cícero a usar seu nome durante “UM MÊS” (caixa-alta no e-mail enviado ao pesquisador) e nenhum segundo a mais...
E aí nós perguntamos cheios de assombro: mas é a nata da cultura digital... Será que eles não sabem que até no meu banal mundo cotidiano eu posso chamar meu peixinho, minha filha, meu namorado, meu bar, meu computador de Sartre, Walt Disney, James Joyce, Gertrude Stein...?
Será que eles ainda não se deram conta que o ano de 365 dias é gregoriano, que o dia de 24 horas é oitocentista, que não existe este prazo de validade on line?
Afinal, o que impede um web-leitor de salvar o arquivo em seu disco rígido e repassar a outros por e-mail? Como se pode bloquear o acesso de um pesquisador qualquer à versão cacheada dos sites que o Google disponibiliza, trazendo versões arquivadas, que não estão mais no próprio site consultado?
Se existe algo de assustador no cenário explosivo das novas tecnologias de produção e distribuição da cultura, esse algo certamente não reside na possibilidade de macular o direito de propriedade, nem na maneira como deixa driblar os antigos critérios que nos permitiam identificar a credibilidade e a legitimidade de um texto, imagem ou peça de áudio.
O assombro reside no negativo dessa discussão e no modo como ela retoma um dos mais desconcertantes contos de Borges, “Funes, o Memorioso”, que nos ensinava que “pensar é generalizar” e generalizar demanda capacidade interpretativa, confronto, síntese e juízo conclusivo.
É essa chamada que está implícita nos recursos de acesso à informação que pautam nossa contemporaneidade. Recusá-la é iludir-se com a possibilidade de negar o presente. Ignorá-la é mais perverso. Significa aderir ao ridículo da citação inconseqüente e ao escândalo do valor do nome como logomarca.
Escrito por gb às 11h13
[ ] [ envie esta mensagem ]
01/12/2004
Search Engine_arte ou o Cinema do futuro

frame de um onewordmovie que tinha eu mesma como tema.
Entregando o ouro: Esta, com cara de pizza feliz, e de franjinha, sou eu, na noite de autógrafos do
"livro depois do livro", no FILE 2003, no British Council, em SP, com minha Coca-Cola,
em primeiro-plano. No lado esquerdo, de casaco de oncinha, está -- como iria esquecer? --
a Chris Mello em versão pantera.
Vcs que ficaram horrorizados e vcs que adoraram o projeto 10 x 10, de RSS-arte, estão convocados a ver, comentar e pasmar com o "oneword movie", um filme sem diretor, sem ator e sem roteirista, inteiramente produzido por imagens que são consultadas no Google - Images.
Não acredita?
Então, desabilite o seu bloqueador de pop-ups e acesse:
Escrito por gb às 18h31
[ ] [ envie esta mensagem ]
Originais de segunda geração
Os ilustres interlocutores deste blog fizeram comentários interessantes sobre o projeto de RSS-arte, 10 x 10, comentado dia 29/11, do qual destaco dois:
a) a angústia de pensar em um mundo em que os homens não serão necessários (Murilo)
b) a despeito das formas de produção dos textos, imagens e sons, só os homens são capazes de interpretação (Rui Werneck)
Sem tomar partido de visões apocalípticas, integradas e deslumbradas, parece-me importante evidenciar que o fim do antropocentrismo não implica o descarte do homem. Implica, sim, é a desconstrução dos paradigmas que vêm orientando nossos regimes cognitivos e perceptivos que ainda vinculam a criação ao nome de um autor, dentro de um sistema que faz com que esse nome funcione como uma logomarca capaz de dar coerência, por si, ao conjunto de uma obra.
Essa desconstrução, não se faz sem transformações profundas em aparatos jurídicos, políticos e culturais. Para que ela aponte para uma maior complexidade do imaginário coletivo e não sua atrofia, faz-se necessário que a capacidade interpretativa seja levada às últimas conseqüências.
A internet não é apenas um meio de comunicação. É um nova “máquina de ler”, que faz de cada leitor um editor potencial. Por isso, redireciona alguns paradigmas que balizaram, com sucesso, os métodos e as formas de produção dos discursos críticos.
Uma delas, inequivocamente, diz respeito à autoria, substantivo feminino ameaçado de extinção não pela facilidade de reprodução permitida pelo meio digital, o que reduziria a discussão a um problema jurídico equivalente ao problema do xerox, mas por estar fundada em uma nova tecnologia de escrita que se rebela contra sua função de inscrever.
A informática em si é tecnologia de replicação, clonagem. Ao mesmo tempo em que permite a produção de idênticos múltiplos pela cópia do código, engendra o fenômeno cultural e estético do “original de segunda geração”.
Não existe perda de qualidade nos processos de reprodução digital. O documento gerado no disco rígido de um computador (seja ele texto, imagem, áudio ou vídeo) é idêntico a sua cópia em disquete, CD, DVD e a arte produzida para a Internet leva essa afirmação ao limite extremo.
O “aqui e agora” se faz pelo fluxo. A obra efetiva-se pela linkagem, perde a precisão de seus limites. Remixando o Critical Art Ensemble, poderíamos dizer então que:
O plágio transforma-se em uma estratégia recombinatória. Põe em curso uma chamada, para que se abra a base de dados cultural, a fim de restaurar a deriva dinâmica do significado que o jogo ideológico do mercado oculta sob o domínio da citação autorizada.
Escrito por gb às 11h53
[ ] [ envie esta mensagem ]
29/11/2004
RSS arte

O site mais legal das últimas semanas é o 10 by 10.
Esse é o provavelmente o primeiro projeto de RSS-arte. A cada uma hora, escaneia os "feeds" de três serviços noticiosos de peso -- Reuters, BBC News e New York Times International News -- para deduzir quais são as as 100 palavras mais importantes do momento, em escala global.
Essas palavras são associadas a imagens correspondentes, também garimpadas nos mesmos serviços noticiosos.
O resultado é um mosaico de uma história líquida, pautada pela mídia, escrita por diversas fontes, sem interferência da edição humana, que aponta para um dos mais surpreendentes rumos da arte on line: o fim do antropocentrismo.
Confira: http://www.tenbyten.org/
Hasta la vista, humanos...
Escrito por gb às 16h18
[ ] [ envie esta mensagem ]