11/02/2005
Arte Wireless

Vc pode fazer isso com sua fotos e um celular com câmera no seu PC. Baixe o programa aqui.*
O contexto wireless é muito diferente do da internet fixa, pois ele já nasceu corporativo (ao contrário da internet, na qual as empresas se ligaram posteriormente). Ele é inteiramente mediado por operadoras e fabricantes.
Nesse sentido, se a arte wireless faz repensar novos contextos de circulação e recepção, por outro remete às relações entre criadores independentes e demandas corporativas, sejam elas as das operadoras de telefonia móvel, dos fabricantes de equipamentos ou de ambas, em ações conjuntas, mesmo quando os projetos não envolvem relações diretas de patrocínio.
Do ponto de vista institucional, desenha-se uma situação complexa para o artista que deseja usar o celular como um novo meio/ferramenta para suas obras, sem abrir mão de sua liberdade de crítica, especialmente para aqueles que trabalham com temáticas mais "militantes" e anticorporação.
Essa aliás foi uma questão recorrente da produção da mostra Life Goes Mobile realizada durante o sónarsound, com patrocínio da Nokia Trends. A curadoria de Lucas Bambozzi garantiu não só a exploração criativa dos recursos, mas uma aguda problematização crítica das condições de realização dos projetos.
Um raciocínio simplista poderia concluir aí: arte e cultura não podem ser produzidas com perspectivas críticas nesses moldes. Contudo, é preciso levar em conta duas nuances essenciais, a fim de não rimar “militância com ignorância”.
Lembrar que o campo estrutural da ciberpolítica hoje não é questionamento da marca ou do produto em si, mas dos sistemas operacionais e o tipo de codificação dos programas utilizados (aberta ou fechada) e, acima de tudo, a crítica dos meios de realização do projeto.
Isso pode criar a possibilidade de a criação não se tornar refém de uma marca, contudo não indica meios para lidar com a paradoxal situação que a arte wireless remete, seja ela para ou com dispositivos móveis. Trata-se de uma arte que é disponibilizada ou mediada por equipamentos que servem a "n" funções -tocar música, ver vídeo, acessar a conta bancária, conferir agenda, falar- e que são utilizados quando estamos envolvidos em mais de uma ação -pedindo a conta no restaurante e usando o celular, por exemplo.
Instrumentos especialmente desenvolvidos para a adequação a situações de trânsito e deslocamento, os dispositivos de comunicação móvel são ferramentas de adaptação a um universo urbano de contínua aceleração, em condições entrópicas, onde o leitor/interator está sempre envolvido em mais de uma atividade, relacionando-se com mais de um dispositivo e desempenhando tarefas múltiplas e não-correlatas.
Daí a arte wireless, nos obrigar a interrogar: como relacionar-se com esse limites corporativos, incorporando-os criticamente aos projetos? Como se relacionar com esse novo olhar, pautado pela dispersão e distribuição e fazer uma arte para ser experimentada "entre" outras coisas, sem recair na fetichização dos meios, maquiando sua natureza essencial de objetos recicláveis, justificados pelas saturação e apagamento das particularidades?
Confira vários links de projetos arte wireless e uma discussão aprofundada do assunto na revista Trópico.
* A foto acima é de Helga Stein. Retrata meu projeto Code_me_UP no Life Goes Mobile, sónarsound SP Instituto Tomie Ohtake
e é parte de //**Code_UP, atualmente no ZKM (Museu de Arte e Mídia, Karlsruhe, Alemanha). Vai estar presente no ToShare.it (Palacio Cavour, Torino, de 24/02 a 1º/03)
Escrito por gb às 07h15
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