06/04/2005

1 MacMcluhan e 2 cocas

McLuhan virou uma espécie de quarteirão com queijo da história das mídias.
Todo mundo acha que sabe o que é, mas não prova, não consome e não escolhe.
Na hora do xeque mate, sempre tem um Big Mac no caminho. E já que a definição e o gosto (supostamente) todos conhecem, não é preciso se dar o trabalho de digerir para ter opinião a respeito.

Assim, as frases primorosas de Mcluhan, um mestre da palavra escrita -- que ele, tão paradoxalmente, embalsamou -- tornaram-se slogans vazios repetidos a esmo.

Quem nunca se arrogou o direito de usar a frase "O meio é a mensagem" sem nunca ter lido Understading media: The Extensions of Man? Quem?!

Poucos.

E entre esses que passam os olhos sobre essas mal digitadas linhas, menos, ou "nenhuns".

Contudo, "O meio é a mensagem" é o nome de um capítulo de um livro de Sir McLuhan.

Ali alguns paradoxos da teoria crítica sobre arte e novas mídias estão postos:



1) A suposição que as mídias são extensões do homem
(Isso é rídiculo numa era em que vivemos sob o signo do projeto genôma e podemos ser livres do atavismo biológico. Não temos extensões na mídia. Já entramos em acordo com elas e vamos decidir juntas o que fazer).

2) Não suporto, também, a confusão entre mídia e tencologia.
A idéia estapafúrdia de que a eletricidade é uma mídia sem mensagem é um equívoco. Uma coisa é força motriz, outra, a energia produtiva...(Contudo, falar que a Internet é uma mídia sem mensagem porque é pura informação, é tudo para calibrar a tese/hipótese: A INTERFACE É A MENSAGEM (aos berros, aos berros)

3) É sensacional a discussão sobre o rídiculo da clivagem conteúdo/forma. O conteúdo, no tempo da cultura das mídias, é capacidade de criar outro meio no meio (outra mídia na mídia). Cada filme é um filme e só os que são outros filmes dentro do filme tornam-se cinema. (Godard que o diga). E isso vale para Internet, DVD etc...

4) Lição essencial de Sir McLuhan: O estudo de mídias só pode ser feito levando-se em conta
a) o conteúdo
b) o próprio meio (ou a própria mídia)
c) a matriz cultural em que o meio atua

5) É discutível e fundamental a polêmica sobre o meio se tornar mensagem em um contexto histórico determinado em que os segmentos especializados deslocaram-se para o campo total. Nesse contexto, according to Mr. Mcluhan o sequencial cede ao simultâneo e o linear cede à configuração (essa idéia e de GÊNIO com todas as letras em CapsLock)

6) Mas aí vem a abobrinha fundamental, pedra angular de toda crítica que ignora as fundamentais considerações dos itens 3 e 4: O efeito dos meios não se dá nas opiniões, mas nas formas de percepção.

E quem se importa com efeitos? (quem raciocina por leis mecânicas, of course. Ou seja: de causa e efeito...)
E quem pensa a percepção sem pensar, simultanea e em "layersmente", em opinião? (quem privilegia os fins sobre os meios...)

Ai, ai, Mr MacMcluhan... Como o sr. se sente quanto é "citado" em teses universitárias como MacLuhan?



Escrito por gb às 23h34
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